sexta-feira, 6 de abril de 2018

Cultura acima de zero


Hoje é dia de marcharmos todos por um orçamento do Estado mais alto para a cultura depois dos embaraçosos resultados dos apoios do estado atribuídos pela DGArtes a instituições artísticas portuguesas.

Conheço de perto a realidade de trabalhar sem apoios e sem financiamento do Estado. Já tive grupos de teatro que trabalhavam sem receber, que pagavam para trabalhar, já estive à frente de Associações Culturais que não podiam pagar nem o bilhete de metro a quem participava nas suas actividades. Hoje sou vogal de uma Associação centenária que está há meses em risco de ficar sem espaço, tendo de provar a sua importância cultural na cidade. Por isso talvez seja fácil para mim perceber que o que está aqui em causa não é apenas uma questão financeira.

Um país vive de diferentes valias. A cultura é uma dessas valias, um desses membros que pertencem ao país, não lhe é lateral ou acessória. O direito à cultura é um direito que pertence aos habitantes de um estado democrático e pertence a esse estado o dever de criar condições para que a cultura seja implementada. É um direito de todos. Os artistas não são máquinas de diversão e tempos livres, eles pertencem ao enriquecimento da mente pensante, máquina que cria condições para uma existência plena.

Particularizando agora no que são os apoios do estado para 2018: as formas de financiamento das estruturas culturais passam pelo apoio do estado, pelos rendimentos das actividades que fornecem a um público pagante (quando as actividades o justifiquem) e pelo financiamento privado. Um país que não é educado a valorizar a cultura não consome cultura, e um país que não pode pagar cultura não se deveria ver privado do acesso à mesma. Dos financiamentos privados prefiro nem falar porque uma estrutura cultural não tem de vender as suas valias a privados nem tem de ser geradora de lucro. Ao serem cortados apoios a estruturas que antes eram apoiadas estes cortes têm de ser contextualizados e justificados pela apatia e inoperância dessa mesma estrutura. Se isso não acontecer o estado está a validar e incentivar o fecho das estruturas que antes considerou válidas sem qualquer justificação. E não, os argumentos que a DGArtes usou não são válidos. E sim, há uma forma de contornar este problema. Com cultura acima de zero.

O facto de agora o PM ter vindo lançar notas aos olhos dos artistas é inaceitável. Os artistas não querem "dinheiro". Os artistas querem um orçamento de estado acima de zero que valide o seu trabalho e a sua importância, querem que este governo altere o que na estrutura já estava mal definido. Este é um problema estrutural do país e contamos com o governo actual para alterar a estrutura destes tantos governos anteriores que foram esmagando não só a evolução cultural do país como a própria identidade cultural. É triste percebermos que a nossa identidade cultural tem sido sempre a identidade demostrada por quem se mantém resistente. A resistência é sempre bela mas não pode ser a regra para a cultura em Portugal.

Por isso hoje, às 18h, saímos todos à rua. Pela cultura acima de zero, uma luta em si própria mas também por termos a certeza de que, se cada um daqueles artistas que hoje estará na rua estivesse a fazer aquilo que é o seu trabalho, aquelas praças seriam palco dos mais incríveis espectáculos ao ar livre. E nós precisamos sempre de beleza.

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