segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O Rafa


Era já perto da meia-noite do dia 10 de Fevereiro. Estava em Beja com algumas das minhas pessoas e estávamos a ler e ouvir poesia má. Como aquilo já se alongava um bocado sugeri fazermos um concurso e perceber quem ganhava, se a leitura de um daqueles poemas se a carta da Maga ao Rocamadour no livro Rayuela, de Cortázar.

"Porque o mundo não me importa se não tiver forças para continuar a escolher algo verdadeiro."

Esperávamos pelo nascimento do Rafa há já quase 30 horas, numa jornada que mistura amor, empatia, entusiasmo e uma violenta expectativa que tem em si amor, empatia e entusiasmo. Pela mãe que o é pela primeira vez e que toma decisões fora do seu corpo para que o Rafa venha lindo e saudável, pelo pai que pede as mesmas dores e que a forma de o fazer é não desligar do momento durante as mesmas horas que a mãe. Então um de nós diz que, quando a Maga acabar a carta ao Rocamadour, o Rafa já terá nascido. E então leio lentamente, as duas páginas da mãe a um filho, e, mesmo no fim, ao chegar às últimas três linhas, toca o telefone, e era a minha mãe. Mas eu ainda acabo de ler:

"Rocamadour, e escrevo-te esta carta sem saber bem porquê, porque talvez esteja enganada, talvez seja má ou esteja doente ou seja um bocadinho idiota, não muito, só um pouco, mas isso é terrível, só a ideia dá-me cólicas, tenho os dedos dos pés completamente encolhidos, vou rebentar os sapatos se não os descalçar e gosto tanto de ti, nariz de açúcar, minha árvore pequenina, meu a cavalinho de pau."

E o Rafa tinha nascido e há algo em nós que finalmente se desfaz, um medo e uma ansiedade escondida que de repente já não existem, porque o Rafa nasceu e nós não ficámos só maiores, ficámos maiores entre nós, porque o Rafa não é só o Rafa, é algo de comum entre mim, o meu irmão, a Julie, os avós, os primos, os tios e também os amigos que na sala festejam como se o fim do medo e o início da vida toda fosse de todos nós. E se calhar a vida é mesmo isto, a benção do nascimento de uma criança é ficarmos não maiores, mas maiores dentro desta teia nossa para que o Rafa cresça sem nunca conhecer outra realidade que não esta. Eu ganhei um sobrinho e uma irmã, e ganhei mais uma vez um irmão. Agora é deixarmos o Rafa ir deixando de ser nosso. Sem que nunca lhe falte rede.

Bem vindo, minha árvore pequenina, meu cavalinho de pau. Que a tua vida seja para ti o que foi o teu dia de nascimento, para nós. Não vais precisar de mais nada.





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