sábado, 25 de novembro de 2017

Todo o Mundo é um Palco

Hoje fui ao teatro ver Todo o Mundo é um Palco. Um espectáculo de Beatriz Batarda e Marco Martins, com a colaboração de Victor Hugo Pontes, para comemorar os 150 anos do Teatro da Trindade.

Passei grande parte da minha adolescência e início de idade adulta em cima de palcos. Poucas vezes foram palcos grandes e encerados, com cadeiras estofadas e um público bem comportado. Ensaiámos em corredores, casas de banho, no sotão da minha mãe, numa esplanada do café. E pisei vários tipos de palcos, todos diferentes. Só que cresci com o teatro que tinha na sua base a certeza que nada disso interessava, onde o importante era primeiro ouvirmo-nos e sabermo-nos uns aos outros, respeitarmos o palco do outro, nunca deixarmos que o outro não tenha resposta a uma deixa que deve ter resposta. Por isso as nossas peças só começava a existir depois de muitas horas de improvisação, de toque, de concentração, de diálogo. Depois de dias inteiros de nos entendermos como actores e pessoas no palco. Depois de deixarmos alguns segredos de lado. Esse foi o teatro que eu aprendi. Depois o resultado podia ser muitas variações disso e, efectivamente, foi. 

Hoje foi esse teatro que eu vi no Teatro da Trindade. Foi uma perfeita coreografia da vida com os actores. É que nem podemos só dizer que são todas as histórias reais e que os actores fazem de si próprios, ou que a grande maioria não é actor. É que nesta peça os actores estão um passo mais à frente. Porque os actores representam-se uns aos outros, misturam-se, mimetizam-se. E escutam-se. E dão espaço ao outro para existir. E tudo dentro de uma encenação que nunca falha, que sabe mudar as cenas com registos violentamente diferentes, e que coreografa o público levando-o a dançar ao som de um jogo, como diz o Miguel Borges a fazer de si próprio, o jogo de que o teatro é feito. E o que é em tudo maior é que a peça é teatro sobre o real e não há forma de representar o real sem ser existindo. E existir em palco com uma sala cheia é estarmos sempre à beira do abismo. E não ter medo de cair. [Fiz há uns anos um curso com o Miguel Borges de improvisação em que ele nos ensinou que se num exercício de improvisação alguém vier para nós com uma faca para nos matar não podemos acreditar que não o vai fazer. Temos de o convencer a não o fazer, a todo o custo. Para salvar a nossa vida.] E aqui, neste palco, ninguém cai.

A vida real maltrata-nos nesta peça. E é a mesma vida real que na mesma peça nos salva. Sem que para isso haja necessidade de explicar onde está a fronteira entre uma e outra. E em pano de fundo há uma homenagem à cidade de Lisboa - no início da peça estão abertas atrás no palco umas janelas de onde se vê a cidade. É a nossa cidade, imperfeita, heterogénea, de ruas estreitas, de calçada escorregadia, mas a cidade da promessa. A cidade onde se chega ao fim da Europa e ao início do Oceano. E são essas histórias que se contam. E nessa infinita e hilariante coreografia o que nos fica é que cada um faz os gestos que quiser, mas que se soubermos e quisermos o nosso gesto pode ir no mesmo sentido do gesto do outro, sem nunca perder a sua individualidade. 

O que interessa é, mais do que saber seguir sonhos nossos, saber traduzir os sonhos dos outros. 

E ir aprendendo todas as línguas do mundo. Para que o mundo nos chegue o mais perto possível. 

Até 10 de Dezembro, no Teatro da Trindade.

Criação: Arena Ensemble
Encenação: Beatriz Batarda Marco Martins
Colaboração: Victor Hugo Pontes
Com: Carolina AmaralMiguel BorgesRomeu Runa
Aline CaldasAntónio Alberto FigueiraAntónio VasconcelosBenmerja AbdelkaderDewis CaldasHeitham KhatibHélder PinaJean Bruno MassyJorge Pedrosa de OliveiraLaure Cohen-SolalLucas  Sadalla, Malena Camargo CaldasMarco PedrosaMick MengucciMoin AhamedPascoal SilvaSafira Robens
Espaço Cénico: Fernando Ribeiro
Desenho de Luz: Nuno Meira
Sonoplastia: Sérgio Milhano
Fotografia: João Tuna
Produção: Teatro da Trindade / Fundação INATEL



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