segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Lisboa, a cidade-amor da minha vida (de quando temos de falar de sair de Lisboa)

Moro numa casa inacabada
Feita de terra molhada
Com o céu às cavalitas
Entra, mas desculpa a confusão;
Anda tudo pelo chão,
Não contava com visitas

Comigo mora gente tão diferente
Que às vezes, pontualmente,
Só falamos por sinais;
Cada um tem na sua bagagem
Um bilhete de passagem
Pelos pontos cardeais

Na sala, uma velha cartomante
Lê ao cavaleiro errante
Um destino vencedor;
As cartas falam de perdas e danos
Para, no correr dos panos,
Encontrar o seu amor

Ao fundo, dorme um soldado sisudo
Com umas botas de faz-tudo
E uma paixão de aluguer;
O bêbado que está no quarto ao lado
Chora sempre em tom de fado
O amor de uma mulher

Aquela que tem o corpo na esquina
Diz que também foi menina
Há-de um dia ser feliz
O homem que a usou pelos quintais,
Como é norma entre iguais,
Compreende o que ela diz

Em cima fica o quarto dos amantes,
Dos poetas, viajantes
E dos loucos sem lugar;
Pintaram um baloiço na janela
Com a luz de uma aguarela
Para a lua baloiçar

Assim somos vizinhos de outras crenças,
De outros livros e sentenças
Outras formas de oração;
Mas quando a noite traz os seus momentos
Escapa destes aposentos
Um bater de coração

Revela-se a verdade nua e crua:
Chove mais do que na rua
Trago o fato ensopado
Aqui qualquer um é vagabundo,
Esta casa é todo o mundo
Falta só pôr o telhado





Letra: João Monge Música: Manuel Paulo Sérgio Godinho, Camané - VOZ Joana Sousa, Inês Sousa- COROS Daniela de Brito - Violoncelo Hugo Diogo - Viola Valentim I. - Violino Paulo Gaspar - Clarinete, Cl. baixo Manuel Paulo - Piano el., sint. Iuri Daniel - Contrabaixo Alexandre Frazão - Bateria André Rocha - Percussão

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