terça-feira, 31 de março de 2015

da maravilha

este é um filme que contraria todos os sítios onde parece querer viver. o campo rude, o não espaço, a casa isolada são o cenário fechado onde vive a família de Gelsomina, de 12 anos, filha mais velha de Wolfgang, uma adolescente que procura a beleza própria da idade mas que prefere marcar convictamente o seu lugar de chefe da família e do negócio (são uma família de apicultores). Gelsomina é a voz da geração que cresce por onde houver espaço para crescer, nesse já referido não espaço mas num mundo que, apesar do isolamento (ou por causa dele) convive com a televisão que a determinada altura da história anuncia riqueza e uma beleza que nunca é vista como impossível.

e é um filme de silêncios. nada é dito mesmo quando nos parece que nos está tudo quase a ser dito. há sempre o espaço de uma fala que não existe mas que parece indiscutível. até há espaço para o amor entre tantas pessoas que não partilham a mesma língua.

não há artificialidade nas representações o que leva a que não haja distância com o público. aquilo é real, aconteceu assim, naquele espaço que não sabemos onde é e num tempo indistinto.

Gelsomina tem um único sorriso, no fim do filme, que conta a sua história toda. é a porta-voz do silêncio, da família. é a que sabe que "há coisas que não se pagam". a que sempre quis mesmo era ter um camelo. a que guarda o brilho do gancho no cabelo com o cuidado com que toca nas abelhas, sem luvas.

um filme que de tão belo vai para além do sítio que lhe pertence. e o sítio que ele inventa nunca esteve em nenhuma parte.


1 comentário:

  1. Vou já a correr ver! Depois, "eles lá do filme" que te paguem a comissão ;)

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