segunda-feira, 20 de outubro de 2014

os gatos do palácio

cheguei à Foz do Lizandro e já sabia que andavam por ali três gatos bebés, que eu acreditava que nunca iria encontrar. fomos procurá-los ao buraco onde a mãe os tinha deixado e lá estavam eles. dois gatos e uma gata. a gata veio a correr para o nosso colo e durante dois dias não saiu de lá. hoje essa gata é um gato e chama-se cesariny. depois percebi que não a podia deixar ali nem os irmãos. o cesariny pôs a pata na água que lhe tínhamos dado e tocou na terra. ficou aflito a limpar aquele bocado tão mínimo de lama. comecei a imaginar a lama, a chuva, o frio da Ericeira. e pronto, fomos buscar o camaroeiro e vieram todos para o meu palácio, os três. a gata ficou com o nome clarice, o outro gato, cortázar.

nos primeiros dias deixaram-me a casa num caos. estou habituada a ter a casa sempre da mesma forma, doce e sossegada. com eles veio o caos, cheiros, lixo. tive uma conversa com eles e achei que tínhamos de nos entender de outra forma. mudei a casa, arranjei um quarto só para eles, dividi a casa em dois e tudo se alinhou.

são três irmãos completamente diferentes uns dos outros e já lhes distingo o miar, quanto mais as manias e manifestações de amor.

a clarice é uma gatinha preta, está a ficar mais pequena que os irmãos. tem bigodes e sobrancelhas anormalmente grandes e brancas. adora caçar coisas das paredes, coisas que não estão lá que só ela vê. descobriu que o modem, que está debaixo do sofá, é o sítio mais quente da casa e ensinou aos irmãos. tem uns olhos irresistíveis, inteligentes e tranquilos. está sempre à luta com os irmãos, perde sempre porque eles são mais fortes, mas nunca desiste, muitas vezes já os pôs a correr dali para fora.

o cortázar é branco, com muito pelo e olhos azuis. quando o trouxe disse logo que não ia ficar com esse (eu ia ficar só com dois) porque ele se assanhava a estranhos. é também chamado, por isso, de "o enjeitado". mas com o tempo percebi que ele era só mais discreto que os outros, cioso do seu espaço. pede mimo de forma discreta e aguenta pouco ao colo. só vem para o meu colo quando os irmãos não estão, como se quisesse pouca atenção mas só para ele. abraça os irmãos a dormir e puxa-os mais para ele, isto tudo sem abrir os olhos. aprendeu a ronronar ao meu colo mas só o faz às vezes, a maior parte das vezes quando adormece encostado a mim. nunca mais se assanhou a ninguém.

o cesariny é a menina que descia a colina para vir para o nosso colo. é o mais inteligente, o que aprende mais depressa, o que ensina os irmãos toda a espécie de tropelias. é ele que consegue sempre entrar no meu quarto sem eu saber como, que sabe subir pelas calças para o meu colo, que ronrona no segundo em que olha para mim, que passa todo o tempo em que eu tomo banho a tentar entrar na banheira e já começou a ensinar os irmãos a fazer o mesmo. foi o primeiro a ficar encantado com o sol que entra em casa e brinca com o sol no chão da cozinha.

todos eles fazem parte da minha casa duas semanas depois. conheço-lhes os detalhes, as diferenças, sei ver quando estão felizes e sei quando estão tristes (que nesta idade é só falta de mimo). respondem todos juntos ao "anda cá" e quando saio do quarto de manhã parece sempre que não me vêem há meses. pertencem ao meu dia de forma absoluta, são família, orgulho e amor. fazem-me rir todos os dias e surpreendem todos os dias com a forma das expressões que fazem. surpreedem-me sobretudo com a forma como se encaixaram no meu quotidiano e como não atrapalharam mais este meu vício de solidão. mas a verdade é que são os meus gatos. os três. eles escolheram-me a mim e eu a eles. tive muita sorte.

este texto é dedicado à sophia, à vera, ao zé e à minha mãe, que me foram ensinando (perante o meu cepticismo) que não há amor como o deles, nem palavras suficientes para o descrever.









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