quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Adèle ou o elogio da simplicidade

já fui ver o La Vie d'Adèle: Chapitres 1 et 2 relativamente tarde, quando já muitas coisas tinham sido escritas e ditas. Ouvi de tudo, opiniões divergentes, pontos de vista que me pareciam estranhos porque contraditórios.
depois de o ver sei que há vários sítios por onde posso pegar no filme mas acho que só me apetece falar do absoluto e brilhante elogio da simplicidade deste filme. e isso incomoda muita gente. incomoda que se faça um filme com três horas em que a "história não é nada de especial", que se faça um filme sobre uma descoberta sexual que no fundo nunca o é, porque Adèle não aceita nem recusa a sexualidade, vive isso com naturalidade - e não é o facto de a relação heterossexual ter sido o mote da tragédia que nos faz poder afirmar, como o elogio da normalidade nos poderia querer fazer ver, que ela não aceitava a sua homossexualidade. Adèle aceita a homossexualidade e com ela o amor, a solidão, a fraqueza e o erro. que não têm género no filme. 
o filme incomoda porque a Adèle e a Emma não estão incomodadas. porque a normalidade é ainda em nós um bicho corrosivo. este é um filme que é um retrato. e é uma tragédia. e é uma absoluta revelação da beleza. é, na verdade, um filme sobre a beleza. sobre o corpo e as suas formas verdadeiras (que também incomoda e não preciso referir o porquê, a nossa representação ocidental do corpo é quase criminosa). sobre a beleza selvagem e natural da Adèle Exarchopoulos. não se sai daquela sala sem uma paixão profunda por ela, sem uma sensação de desconforto que demora a sair da pele tal é a beleza dos gestos. todos intuitivos e sensuais. e todos verdadeiros porque não há a menor possibilidade de aquilo por que passam Adèle e Emma não ser absolutamente real.e nós somos testemunhas do quotidiano, do amor, da beleza, da sensualidade, da pele, da profunda tristeza, da desilusão, do carinho, da tragédia de Adèle.


tinha atrás de mim um casal absolutamente incomodado. mexiam-se na cadeiras, riam-se quando percebiam que aquilo ia descambar, suspiravam quando já não descambava. foram um dos motes para este texto. como já disse muitas vezes gosto que os filmes, livros ou qualquer outra forma de arte nos retire do nosso conforto, só assim será possível o avanço e não a mera distração, termos que me faz muita comichão. creio que este casal ainda hoje deve estar às voltas na cadeira sem saber o que fazer ao que lhes passou à frente dos olhos. e ainda bem. 



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