segunda-feira, 4 de novembro de 2013

obliquidades #66

tenho dias extraordinários. e não quero que esta palavra vos soe como dias bons. são extraordinários porque são todos fora do normal. em todos eles tenho sempre pelo menos um momento que soa a pedra na estrada, que me faz repensar, recomeçar, pensar melhor. não tenho dias comuns. e não faço por isso. acontece-me pela forma como me criei.
hoje pensava que isto realmente pode ser doloroso. a verdadeira causa de sofrimento. mas acaba por não ser por ter a cabeça e o corpo treinados para isto. e digo que poderia ser sofrimento porque o termos dias extraordinários pressupõe que as pessoas também o sejam. ou tenham de o ser. ou que desejemos que elas o sejam.
ainda aprendi algumas coisas com os budistas no pouco tempo que "lá" estive. uma delas foi que quando contas a tua vida a alguém, ou um determinado período de tempo, tu contas sempre o que foi extraordinário e não o ordinário. não quero com isto dizer que os quotidianos e as rotinas me aborrecem ou que as considero menores. falo da importância de encontrarmos o extraordinário das pessoas. quando penso nas pessoas que amo ou que não suporto penso no que elas têm de extraordinário, de fora do quotidiano delas. as vezes que me surpreenderam, as vezes em que a "normalidade" (termo terrível) foi reconfortante. lembro-me das vezes em que o serem extraordinárias foi a minha pedra na estrada nesse dia. é assim que recordamos as pessoas.
não há pessoas normais. não há pessoas planas. horizontais ou verticais. há sempre uma obliquidade em todas as pessoas. e eu tendo, desastrosamente, a apaixonar-me pela obliquidade das pessoas. pelo momento em que elas me são fogo de artifício, em que me surpreendem, em que reagem como eu nunca esperava que reagissem. e prendo essa obliquidade a mim sempre tempo demais.
e agora tentando ser positiva - eu sei que essa obliquidade não desaparece das pessoas. mesmo que elas entrem comigo em espaço de conforto o facto de a obliquidade começar a ser uma percentagem mínima daquilo que elas me mostram não torna a obliquidade menos honesta. e eu não me torno menos apaixonada por ela. e não penso que inventei aquela pessoa. prefiro acreditar que a vi melhor mesmo que isso que eu vi tenha há meses deixado de existir. existiu, é real, pode voltar a qualquer altura. 
e eu sei esperar. sei perceber que às vezes temos de nos tornar planos para respirar. mas o que somos de extraordinário está ali sempre. e nem sempre é fácil compreender onde está o sítio desse regresso latente. 
hoje vi um filme em que a certa altura um pai aconselha um filho a repetir todo o dia que teve mas agora a "reparar". não desenvolvia o "reparar". era "reparar". acho que talvez o facto de eu ter dias extraordinários não me torna diferente de alguém que acha que não os tem. torna-me viciada em reparar em tudo. e desenganem-se, isso não é sempre bom. mas é muito vivo. 

Sem comentários:

Enviar um comentário