terça-feira, 5 de novembro de 2013

a Respigarte ou como trabalhar dentro de uma gruta

há uns anos quando ainda morava na damaia fundei uma associação cultural, a Respigarte. acreditávamos, eu e umas pessoas boas que por ali andavam, que na damaia se faziam coisas boas, havia artistas e pessoas com vontade de construir alguma coisa. a Respigarte surgiu então enquanto associação cultural que dava primeiras oportunidades a quem tinha obra para mostrar mas não tinha como entrar nos meios viciados e nos lobbies de uma cidade como Lisboa. fizemos primeiras exposições, primeiros concertos, primeiros espectáculos, primeiros cursos, primeiros lançamentos de livros, primeiras feiras de artesanato. com o tempo a obrigatoriedade de assembleias gerais sempre com pouco conteúdo desmotivou as pessoas e foram todas desistindo, tirando uma ou outra que não pertencia ao meu grupo mais apertado de amigos. os "meus" desistiram.

não é fácil trabalhar sem receber. nos vintes sobretudo - a década que, para mim, é marcada pelos maiores entusiasmos e maiores desistências. quando agora marcámos um encontro Respigarte ninguém se lembrava do que tínhamos feito de bom, só do que foi desagradável e cansativo.

foi a minha grande desilusão perder a Respigarte. depois ainda tive uns grupos de teatro com amigos mas que foram igualmente uma desilusão. eu transformei-me numa pessoa desistente, esperando que os projectos me dessem a mim mais do que eu a eles. e isso, claramente, não funciona. 

então comecei a fazer tudo sozinha. a lidar mal com o trabalhar com outros, a depender dos humores e vontades que não coincidiam com os meus. criei projectos, cursos, eventos, em todos os níveis fui isolando o que faço. na família, com os amigos, no trabalho que paga as contas e nos outros. isto não é bom e não adoro mas sinto-me mais segura. por vezes é solitário e ando sempre à procura de algumas pessoas com quem possa falar sobre isto. mas mesmo isso é difícil. isolo-me em duas ou três pessoas que têm vontade de me ajudar a criar os projectos que invento, ajudo a outros a criar os deles.

não gosto de viver numa gruta. e no meio das minhas desilusões fui criando carapaças onde cabem aqueles que vão participando. e depois há surpresas. e há pessoas que entendem e que gostam de ouvir. no dia dos eventos há amigos próximos que nem sabem que esse evento existiu, é verdade, que nunca consideraram que hoje a minha vida inteira é o meu trabalho e este amor incalculável que lhe tenho, continuam a considerar o trabalho algo de que não se fala depois de picar o ponto, sem perceberem que não pico ponto nenhum e que trabalho todas as horas que conseguir e puder. as pessoas continuam distraídas e voltadas para dentro. eu também, se bem que ando a tentar, pelo menos, transformar esta gruta numa tenda. uma tenda grande. onde caibam amigos para ouvir e falar, onde eu possa sentir vontade de voltar a trabalhar em grupo sem medo, amigos que me possam dizer que têm um projecto onde eu também possa entrar, uma tenda mais leve, mais fresca e, sobretudo, mais portátil.

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