terça-feira, 18 de junho de 2013

sobre o MST

Caro Miguel Sousa Tavares,
venho aqui responder-lhe (como aparentemente já esperava) ao seu inspirado texto publicado no Expresso. Ainda bem que depois do relato do que foi a sua escola primária nos faz notar que não vai "sustentar que assim é que se estava bem" porque quem não seja um perfeito anormal vê claramente que estava, basta ler o parágrafo anterior a esta sua afirmação. O que é tão vergonhoso que nem vou comentar.
Não é com surpresa que vejo o seu "ataque" à greve dos professores começar com dois erros muitos graves: o primeiro referindo as horas de trabalho extra - que é (como certamente saberá) uma pequena parte da luta dos professores, e refere a questão da avaliação que não tem nada a ver com estas greves. Sobre isto tenho apenas um comentário (gostava que reparasse na quantidade de comentários que estou a deixar cair) - é demagogia pegar num mau argumento de alguns professores transformando-o na sua bandeira. É o que têm feito as nossas televisões e os nossos jornais aproximando-se, sem grandes surpresas, do lixo jornalístico. E a demagogia, como certamente concordará, é feia e não favorece nada essa sua máscara de intelectual culto e inteligente.
E agora terei de perder o tom polido e mandá-lo à merda pelo desplante de afirmar que Portugal faliu por culpa dos trabalhadores preguiçosos e aldrabões desresponsabilizando quem realmente nos enterrou numa dívida impossível de resgatar e que vê a sua única salvação numa classe média agora empobrecida e nos já empobrecidos agora miseráveis.
E para terminar vou-lhe explicar algo que se calhar durante a sua adolescência não aprendeu: eu já tive dezoito anos e também já fiz exames nacionais. E nessa altura estudava na Damaia, numa escola elitista que virava as costas aos maus alunos ou não os deixando entrar ou fingindo que eles não existiam. Representei alunos, entreguei moções, reclamei, fechei escolas, reuni com outros estudantes do país, fizemos greves. Eu era politizada e isso não me fez mal nenhum, pelo contrário, permitiu-me, por exemplo, ler o seu texto, achá-lo cretino e saber dizer porquê. Os nossos miúdos podiam estar ansiosos por não fazerem o exame nesse dia. Mas os nossos miúdos são muito mais prejudicados com salas com mais alunos não podendo o professor acompanhar devidamente os que têm mais dificuldade, com exames desde a meninice, com programas que se alteram diariamente, com redução das ajudas sociais, dos apoios às famílias. E se formos mais longe estes miúdos sentirão ansiedade por não conseguirem trabalho, por terem de deixar o país, por não quererem estudar mais porque não vale a pena ou não poderem porque não têm quem os apoie num país onde estudar se tornou de elite. O que este governo criou foi uma instabilidade e ansiedade generalizada. Essa sim. Isso sim prejudica os miúdos. Não lhes faz mal nenhum não fazerem um exame se perceberem que lutamos por uma educação melhor, estruturada, de qualidade. Que lutamos para que eles tenham um futuro melhor. Há preguiçosos por todo o lado, há muitos professores que lutam só por não quererem trabalhar mais cinco horas. Mas volta a ser demagogia o facto de centrar neles o seu discurso quando não é essa a luta deles. Não faz mal nenhum a estes miúdos na entrada da vida adulta valorizarem a luta, o direito à greve. Vou até mais longe - a luta, por si, deveria ser aplaudida. Quem se manifesta, quem defende os seus direitos e não aceita tudo o que lhes fazem e mandam fazer. Os nossos miúdos, ao não fazerem exame, ganharam ansiedade, mas ganharam muito mais do que isso.
Quanto ao final do seu texto, e chegando aqui, terei apenas de dizer que chegámos à parte menos inteligente - qualidade que sempre lhe reconheci até hoje -, comparar um adiamento de exame a um fogo ou a um doente numa maca é claramente estupidez. Um fogo não se adia, nem uma doença, um exame sim. Já um controlador aéreo, se fizer greve, que faça quando o avião vai descolar porque greves mansinhas, não obrigado. Se fazemos greve é para parar o país, não para fazer cócegas.
E para terminar lhe digo que quando nos quiser ludibriar com a ideia de que sabe do que fala pelo menos que seja com algo mais elaborado do que chamar palhaço ao Cavaco. Porque ao fazer o jogo do governo de virar a opinião pública contra os grevistas com argumentos faliciosos e facciosos não está a ser melhor do que ele. Para a próxima, elabore. Talvez não consiga.
Caro Miguel Sousa Tavares, o que é inadmissível aqui não será nunca a luta dos professores. O que é inadmissível é a sua opinião.

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