domingo, 2 de junho de 2013

fim de(a) semana

agora falo do que já vai terminando. do que rebentou dentro de mim sem aviso. do que de repente me deixou dentro do abismo sem momento de queda inicial e sem fim.
a solidão é um espelho de si própria. e esta semana retirou-me do meu corpo e garantiu-me que sozinha não conseguia. desconheci os meus gestos, palavras e quotidianos. percebi que estes meses fui uma parte de mim que não me é absolutamente nada. e percebi finalmente o porquê de não querer falar sobre isto com ninguém, de resistir às maiores tempestades em silêncio. fi-lo porque nunca, em nenhum momento, as minhas feridas serão curadas sem ser de dentro da pele para fora. eu sei amar e sei partilhar os dias mas não consigo não saber curar sozinha todas as quase cicatrizes. percebi que estes meses procurei sem força nos movimentos uma jangada que ao mesmo tempo recusava. eu nunca serei pessoa em contraponto de outra. nunca vou conseguir achar que quem me der a mão é quem consegue que eu nunca mais volte a cair.
e foi sozinha que me deixei estar. só pedi uma hipóteses a todas as pessoas de me deixarem estar. de esperarem para que eu percebesse sozinha como me curar de mim. e percebi que aí está a amizade que acredito como única possível. aquela que nos dá mais uma hipótese de percebermos sozinhos que temos de ser melhores, mais íntegros. a amizade não nos resolve os erros e as falhas. a amizade dá-nos espaço para que o façamos sozinhos e a amizade protege-se das tempestades que criamos entretanto. a amizade dá-nos uma hipótese de o fazermos sozinhos no caminho e está lá no final, cansada, mas de pé.
eu sei amar e amo e quero amar sempre mas a pessoa que mais amei até hoje foi a que me mostrou da pior forma que não posso depender de ninguém para entrar nos carris. foi esse amor que transformei na minha amizade de pedra. porque infelizmente as amizades fortes reconhecem-se nas batalhas. porque transformar o amor em amizade é algo que nos sai da pele e demora um tempo que julguei não ter. e foi nessa amizade que percebi que temos de nos curar com o que os outros nos ensinaram e não através deles. e o caminho mais fácil é termos um abraço quando o corpo não aguenta. mas no momento em que a pessoa que abraça se vai embora o corpo sozinho detesta-se com mais veemência.   
esta semana teve o tamanho de anos que não quero perder. mas cada minuto desta semana foi um pensamento sobre mim. fui escrevendo textos na cabeça. em nenhum momento se esvaziaram as palavras. ou o carinho. ou o medo. não o medo da solidão mas o medo de não poder emendar o que de tão desalinhado fui em tanto tempo.
sempre fui feita de pessoas e de livros. sempre foi essa a minha sombra. e no último ano fui um caos de pele e ossos abandonados. fui de bengala em bengala à procura de respostas. e a resposta mais verdadeira estava mesmo ao pé de mim. e está lá quando a tempestade acabar. e está exactamente no mesmo sítio. e não há nada que eu consiga dizer ou escrever que mostre como foi gigante o perceber, agora sim, da pior forma, que não estou sozinha. e que nunca, mesmo quando me parecer mesmo impossível aguentar a solidão, vou estar realmente sozinha. porque no final o que restou de mim tem uma pessoa ainda à espera. e o que restou de mim, mesmo que em farrapos, depois de ter entendido isto sozinha será infinitamente mais bonito do que aquilo que fui enquanto achei que a solidão se curava com palavras e abraços.
e hoje estou em paz. sei mais. e amo infinitamente mais esta sala vazia. estou em paz. estou em silêncio. e sei bem que ainda falta trabalho. e o trabalho que falta será fácil, porque percebi a verdade que de todo não estava a conseguir ver. e nunca as palavras vão chegar para te dizer que pode demorar anos a acreditares no que estou a dizer. mas esses anos vão existir. e no final este ano terá sido um episódio. e não tenho pressa, nenhuma. porque isto que descobri deixa-me ouvir-te em contínuo. deixa-me entender-me melhor. deixa-me que nada da minha solidão seja em vão. que nada nesta solidão seja tóxico. que, sobretudo, esta solidão não seja exterior a mim, seja exactamente o melhor de mim. 

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