quarta-feira, 10 de abril de 2013

obliquidades hoje

isto da solidão é tudo uma construção. se vivermos virados para fora temos uma desculpa sincera para não nos questionarmos por dentro da pele. se vivermos para o trabalho, para o amor, para a necessidade que temos de que nos oiçam e nos entendam não teremos a possibilidade de nos entendermos e de fazermos as pazes com o eu que muitas vezes nos maltrata em solidão.
nestes últimos dias tenho olhado para a minha casa. para os cantos, para as teclas do piano, para os livros caídos, para o sol que ao final do dia ainda entra na marquise, para o rio que quase não vi todo o inverno. e sinto a maior sensação de pertença que alguma vez senti. é como uma noção de sentido. a verdadeira noção de sentido. como se houvesse uma lógica real do meu corpo com este espaço. é uma sensação de início. hoje uma amiga olhou para a sala e disse que se vivesse aqui não saía dali. e eu não saio dali. ali tive a nossa primeira conversa. ali li os livros mais emocionantes, as poesias certas. vi filmes que achei que nem podiam existir. ali imaginei as prendas que havia de dar. ali dormi quando o sol já me batia na cara. ali pus as minhas plantas e vi-as ressuscitar apesar de serem cactos e lá fora estar um dilúvio.
ali, depois de muito tempo, pensei como numa montanha russa

amo-te

não há solidão que resista à certeza deste amor todo. por ti e por esta casa. deixo-me desnovelar e deixo-me respirar. e a casa de banho cheira a morango porque hoje foi dia de amigos e poetas. o peito arde de cansaço de sentir em demasia. mas preciso de deixar de me conter por palavras insensatas. quero ser mais do que a sensatez. quero incomodar-te até não conseguires sequer respirar.

quero deixar-te sozinho até que a falta do meu corpo te soe a corrente de ar

e depois quero ficar sozinha. deixar-me lembrar. sinto-me absurdamente feliz hoje. não me retires parte do toque. deixa-me na inquietação do que não será. convida-me só mais uma vez para te reescrever a ausência de mim. e depois deixa-me existir. sem medo de convulsões. com uma parte inteira em desalinho a outra que se deixa navegar.
deixa-te oblíquio. deixa-te incerto. não te alinhes. não há defeitos que te alinhem na perfeição da obliquidade em que vives. numa obliquidade, mesmo que um desça e outro suba há sempre um ponto de encontro. aqui.

Sem comentários:

Enviar um comentário