segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

intelligentsia

quando falo de inteligência, não falo de cultura, nem de criatividade.

de acordo com a wikipédia
"Inteligência pode ser definida como a capacidade mental de raciocinar, planear, resolver problemas, abstrair ideias, compreender ideias e linguagens e aprender. Embora pessoas leigas geralmente percebam o conceito de inteligência sob um âmbito maior, na Psicologia, o estudo da inteligência geralmente entende que este conceito não compreende a criatividade, o caráter ou a sabedoria."

é nessa inteligência que tenho pensado. ontem em conversa falava do facto de a inteligência não ser necessariamente mensurável, apesar do que muitas vezes se faz. a capacidade mental é inerente e tem apenas de ser trabalhada. aquilo a que hoje assistimos é a um afastamento e um incentivo à preguiça mental generalizado. por um lado, e falo da minha geração que é a que conheço melhor e que acompanho mais de perto, a tendência é para desvalorizar as dificuldades. os livros difíceis, os filmes difíceis, as séries difíceis. depois, quando se acede a ler / assistir a essas dificuldades temos alguma tendência a não pensar o que vimos ou lemos. por outro lado nas escolas e em casa as nossas crianças caminham para o facilitismo absoluto, contrariado e bem por alguns pais, mas que encontram nos miúdos uma grande resistência. o não perceber uma questão deveria ser razão para a explorar ao máximo. o que nem sempre acontece.

não estou aqui a fazer uma defesa exacerbada de que não podemos ver televisão ou que não podemos ler livros que não sejam livros difíceis (este conceito é tão complicado que nem vou entrar por aqui). eu também o faço, não nos livros, isso não, mas com o resto. acredito e defendo a importância de algumas horas com o cérebro a derreter. o que assisto é muito mais grave do que isso, é uma fuga total em algumas pessoas à dificuldade. é o não conseguir com quase ninguém discutir um filme que de certeza que não se fica "por ali". na arrogante adolescência intelectual por onde dei uns passinhos pelo menos havia esse espaço. ainda que coxo. bem, muito coxo.

o nosso cérebro é uma máquina que precisa de ser trabalhada. quando digo que não estou a falar de cultura é que não estou aqui a referir que é um problema não se conhecer o Turner mas sim não tentar perceber o que são as tempestades dos quadros dele. ou que não se saiba quem é o Leos Carax mas sim que se recusem a ir ver um filme dele por subverter a lógica da narrativa tradicional. ou o David Lynch, na mesma lógica. ou que se perca o maravilhoso da poesia do herberto helder por se achar que não se percebe que história conta ele. ou achar que o Anna Karenina é um livro de 800 páginas, a cima de tudo. e depois podemos falar da interpretação do quotidiano. se pensarmos no que o Steinbeck nos quis dizer no A Leste do Paraíso já não nos vai doer tanto quando discutimos com alguém que aparentemente nos mostra que não somos fundamentais e importantes. se conseguirmos pensar no que levou o Nicola da Meglio Gioventu a dizer mesmo no final do filme "chegou a hora de sermos generosos" vamos perceber melhor que não há relações entre pessoas que não possam dar a volta mais tarde.

o entendimento é uma arma. o pensar é uma arma. torna-nos mais aptos na convivência. mais felizes no trato. mais apaziguados. mais completos. mais úteis. a preguiça é um veneno e torna-nos os dias iguais uns aos outros. e nisso eu não vejo qualquer vantagem.


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